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Perdida entre ossos no maior cemitério subterrâneo de Paris: a visita às Catacumbas

maio 28, 2017,0 Comments

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming

Eu até que gostava de começar este texto sobre as Catacumbas de Paris a escrever sobre o quanto me perdi de amores por este local histórico mas, perdoem-me todos aqueles que o consideram como um dos locais obrigatórios a visitar na capital francesa, tal não aconteceu.
Não foi por falta de boa vontade, juro. Apesar de a descrição deste monumento não me deixar particularmente entusiasmada, fui visitá-lo de espírito aberto, pronta a contemplar ossos como quem vai admirar uma obra de arte ali ao Louvre ou fica horas a observar os luxuosos detalhes de uma qualquer divisão em Versailles. Para ser pura e completamente honesta, dêem-me qualquer museu ou palácio em França, antes de me obrigarem a voltar a percorrer quilómetros de subterrâneos para dar por mim 65 metros abaixo de terra a contar exemplares de crânios, fémures, tíbias, costelas ou clavículas.

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming

Mas, comecemos pelo início. Era o meu dia de folga e eu estava, mais uma vez, sozinha. 
Trabalhar na Disneyland Paris tem as suas desvantagens e uma delas são as folgas e horários rotativos. É fantástico travar amizade com colegas de trabalho, mas quando queremos combinar algo, damos por nós a perceber que esta semana temos folga à Segunda e à Quinta e o nosso melhor amigo só tem a Terça e o Domingo livre e até um mero cafézinho se transforma numa enxaqueca porque nós trabalhamos de manhã e ele à noite. 
Não que eu me queixe completamente: este quebra-cabeças que é organizar folgas fez com que percebesse que até tinha em mim um q.b. de solo traveller, algo que desconhecia até emigrar, e que estar sozinha não é de todo igual a estar só.

Pois bem, é o meu dia de folga e o meu plano original estava longe de incluir passá-lo a ver aquele que é o maior ossuário de Paris. Não, o que eu tinha mesmo intenção de fazer era finalmente riscar da minha lista o fascinante Château de Chantilly, mas um problema de transportes públicos impediu-me de vir a ter este palácio como destino final e, apesar de o meu cérebro normalmente funcionar bem sob pressão, vá se lá saber porquê a única alternativa que me ocorreu no momento foi visitar as tão aclamadas Catacumbas de Paris.

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming

Não, passar 3 horas da minha vida numa fila que serpenteia ao longo da Place Denfert Rochereau não estava de todo nos meus planos, mas valha-me o facto de ser uma mulher prevenida e andar sempre com um livro na mala, porque o tempo que passei à espera de finalmente entrar nas Catacumbas acabou por não ser um completo desperdício e permitiu-me despachar uma boa parte do (esse sim, fascinante) 11/22/63 do meu querido Stephen King. Tanto assim foi que, ainda longe da entrada, acabei o livro e dei por mim a meter conversa com um casal canadiano à minha frente que me contou a história de como tinha vindo a França para um casamento e tinha acabado a fazer uma roadtrip pelo país. Sim, só eu para meter conversas com estranhos, mas acreditem quando vos digo que isso é especialmente benéfico em filas para locais turísticos porque acabamos a fornecer um milhão de dicas sobre a França e a receber de volta descrições idílicas sobre Cinque Terre, um cruzeiro nas Caraíbas ou o que fazer em várias cidades dos Estados Unidos.
Depois de ter trocado dicas de viagem com os meus vizinhos de fila espera durante uma boa hora, finalmente conseguimos entrar!

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
os tunéis em linha recta das catacumbas

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
as inscrições que indicam as ruas que antigamente aqui passavam

Talvez tenha sido da espera, mas dei por mim finalmente entusiasmada por visitar as Catacumbas!
Sou um pouco do contra (já que a maior parte das pessoas depois de tanto esperar tende mesmo é a ficar cansada e sem vontade de ver seja o que for), mas a verdade é que o meu interesse parece sempre aumentar exponencialmente quanto maior for o tempo de espera. Apercebi-me disso quando fiz a minha maior fila de espera até hoje, umas aborrecidas fascinantes quase sete horas de espera para entrar no Palácio do Eliseu, arrastada por um colega e sem saber muito bem ao que ia.
Voltando às Catacumbas, convém mencionar que uma das razões pelas quais as filas são sempre longas e uma verdadeira tortura é que apenas 200 pessoas podem estar no seu interior de cada vez.
Entusiasmada, comprei os meus bilhetes mesmo atrás do casal canadiano que referi, passei os tourniquetes, desci uma estreita escada de pedra em espiral... e para meu espanto deixei de os ver! Não me perguntem como tal é possível, mas as Catacumbas parecem ter a capacidade de fazer as pessoas se afastarem umas das outras porque dei por mim, sozinha, a percorrer uns tunéis sombrios, frios e onde via água a escorrer sem ver ninguém durante muito, muito tempo.
Depois de ter percorrido estes tunéis em linha recta sem interesse nenhum aparte umas gravuras que marcam os nomes das ruas que antigamente por aí passavam, de me ter agachado umas quantas de vezes em lugares onde o tecto é demasiado baixo e de me ter questionado umas mil vezes se estaria a ir na direcção certa, dei por mim a finalmente ver um portão gravado com a inscrição "Pare, este é o Império da Morte".

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
as placas que indicam o cemitério de origem e a data em que os ossos foram transferidos

Talvez eu devesse ter aceite a dica que me era dada à entrada deste ossuário, mas optei por continuar a minha visita às Catacumbas de Paris.
Originalmente, as maiores igrejas de Paris tinham os seus próprios cemitérios nos arredores da cidade, mas à medida que a cidade foi crescendo, muitos dos cemitérios deixaram de ter espaço e, no final do século XVII, apenas os ricos conseguiam pagar um enterro apropriado. Os pobres eram enviados para serem enterrados em valas comuns, sem caixões, mas até estas começaram a ficar sobrelotadas e os corpos a poluir a água subterrânea e a espalhar doenças. Sem outras opções, os cemitérios dentro dos limites da cidade foram fechados e os corpos de mais de seis milhões de pessoas foram transferidos para antigas pedreiras abandonadas, sem identificação de esqueletos, apenas uma lápide na qual se pode ler de que cemitério vieram e em que ano foram movidos.

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming

Ao vaguear pelos tunéis das Catacumbas, percorri um labirinto de passagens e galerias com pilhas de ossos. Foi mesmo isso que vi: ossos. Vi ossos menores empilhados contra paredes e ossos mais compridos empilhados à frente com um je ne sais quoi de potencialmente artístico. Vi ossos de todas as partes do corpo que possam imaginar e de todos os antigos cemitérios de Paris que parecem se ter lembrado de desenterrar. Vi ossos arranjados em pilhas rectangulares, circulares, triangulares. Vi ossos arrumados em forma de coração, de cruz ou até mesmo de barril. E, depois de tantos ossos, dei por mim na saída das Catacumbas, de regresso à luz numa rua tranquila, quase como se tivesse acabado de sair de outro mundo.

Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
Visita às Catacumbas de Paris - Drawing Dreaming
ao fundo, ossos em forma de... barril

A sensação que tive ao sair foi comparada à que se tem quando se sai de uma sala de cinema depois de assistir a um filme que roça o incompreensível e a única coisa que nos ocorre pensar são perguntas tais como: "Mas já acabou? Onde está a história?". 
Saí das Catacumbas e apenas conseguia pensar: Era só isto?; É isto de que tanta gente fala?; É só disto que se trata as grandiosas, magníficas, fascinantes e históricas Catacumbas?; Uma pilha de ossos?.
Vou ser honesta, tão grandes eram as expectativas que me senti defraudada. Perdoem-me aqueles que visitaram as Catacumbas e gostaram, mas pagar para ver ossos não me conseguiu deslumbrar.
Por mim, vou só ali sentar-me num banco de um qualquer museu de Arte e ficar a olhar para um quadro durante um bom momento. Não que todos compreendam, mas eu cá prefiro mesmo.

já visitaram as catacumbas de paris? o que acharam?

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